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As reformas do Vale do Anhangabaú

CEP 01010-001 - esse é o endereço do Vale do Anhangabaú. Não é preciso entender muito da geografia de São Paulo para saber que o local é um marco central da cidade. Mais precisamente, um marco entre duas partes do centro: o centro velho de São Paulo, que se estende rumo a praça da Sé, e o centro novo, em direção a Avenida Paulista.


E como tudo em SP, ele já mudou bastante – e vai mudar mais uma vez. Mas antes de entrar no assunto (ou polêmica) da nova reforma do Vale, vamos voltar um pouquinho no passado do Anhangabaú, que é um símbolo das transformações de São Paulo e conta a história da cidade melhor do que ninguém.





Até o início do século XX, corria pelo vale o Rio Anhangabaú, que tem suas nascentes nos bairros da Vila Mariana e Paraíso. A expansão urbana de São Paulo não havia chegado à região (a maioria das casas ainda se concentravam em volta da Sé), que era ocupada principalmente por sítios e chácaras.


Inclusive, havia uma plantação de chá preto na região (propriedade do Arouche Rendon, para quem quiser procurar a referência) que foi a razão do nome do Viaduto do Chá. Conforme a cidade foi crescendo, a urbanização chegou à região em uma época em que São Paulo era conhecida como a “capital do café”. Em 1906 o rio foi canalizado e a partir de então, o Parque do Anhangabaú foi surgindo aos poucos: com diferentes obras do Plano Bouvard, de 1911, junto com o Teatro Municipal e a Rua Líbero Badaró, era uma paisagem quase francesa.





30 anos depois, São Paulo era outra cidade – cresceu muito. E as coisas no Vale do Anhangabaú também mudaram: em 1940, o parque foi desfeito para construir uma via expressa que ligava as zonas norte e sul, conectando a Avenida Tiradentes com as avenidas 9 de Julho e 23 de Maio. A área verde ao melhor belle époque paulistana se transformou em um deserto de concreto feito somente para os carros.





Mobilidade sempre foi um problema na cidade, mas com o passar dos anos, a degradação urbana e a qualidade de vida também passaram a serem questões importantes: com o crescimento da cidade, crescia também a necessidade de áreas verdes e opções de lazer - a ideia era de que as pessoas pudessem ocupar os espaços no centro, não apenas usar como um fluxo de passagem. Dessa necessidade surgiu o Vale do Anhangabaú que conhecemos, em 1991.


Talvez o maior problema desse novo projeto para o Vale do Anhangabaú tenha sido que, na tentativa de unir o melhor dos dois mundos, o resultado não foi positivo para nenhum dos problemas: as pessoas circulavam por ali, mas preferiam os viadutos. Algumas pessoas estacionavam ali, mas não era tão agradável assim.




Claro que o projeto era bonito e que o lugar foi palco de diversos acontecimentos importantes – de uma forma ou de outra, era utilizado -como devem ser utilizados os espaços públicos. Mas 30 anos depois, o lugar sofria com a degradação urbana, espantando dali o público que o lugar deveria de ter.


Agora, estamos em obras novamente. O projeto foi feito pelo escritório dinamarquês Jan Gehl, com o patrocínio do banco Itaú. Logo deve ficar pronto. Sem entrar no mérito do projeto de paisagismo – que ainda não foi concluído, portanto sem conclusões precipitadas – o fato é que a região precisava de uma requalificação: quando um espaço grande como o Vale do Anhangabaú para de atrair as pessoas, é sinal de que alguma coisa está errada.





São Paulo é uma cidade que constrói um novo centro a cada trinta anos, mais ou menos: A Sé, a Av. São João, a Paulista, a Faria Lima, a Berrini... Em vez de procurar expandir a malha urbana cada vez mais, criando novos problemas de mobilidade urbana, talvez a cidade devesse olhar para o centro e para o que já está feito: lugares com acesso fácil, bastante oferta de serviços, alguns dos cartões postais da cidade, tudo ali. Mas existe um elemento fundamental em qualquer promessa de revitalização: as pessoas. É preciso atrair as pessoas para o centro – o que é público deve ser ocupado pelo público.


A iniciativa de revitalização faz parte do novo Plano Diretor da cidade, mais especificamente do PIU (Projeto de Intervenção Urbana), que busca atrair mais pessoas para a região. O centro de São Paulo possui um fluxo diário de dois milhões de pessoas, então a ideia é transformação o Vale do Anhangabaú de um lugar de passagem em um lugar permanência, especialmente no período da noite. Pensando em garantir a agenda de eventos (e também a manutenção do espaço), a prefeitura já abriu edital de concessão, colocando a administração nas mãos da inciativa privada. Um dos pontos mais delicados do projeto é a manutenção do parque e a prefeitura está apostando em parcerias com outros setores para garantir que o espaço funcione de acordo com a proposta.





Atualmente, existem diversos parques e áreas de lazer em andamento na cidade: a Paulista fechada aos carros no domingo é um sucesso. O Minhocão segue no mesmo caminho e reza a lenda que um dia vai virar um parque elevado. Até as obras do Parque da Augusta devem começar em breve. A questão é que São Paulo precisa de opções de lazer de acordo com o seu tamanho e sua população: em uma cidade conhecida pelo stress, isso deveria ser uma prioridade.


Se o Vale do Anhangabaú serve para contar a história de São Paulo, talvez esse seja o sinal de que as coisas estão mudando. Já tivemos plantações, já escondemos o rio, já andamos num jardim europeu, já vimos à dominância dos automóveis, agora vemos os esforços para trazer as pessoas de volta. Seria muito bom se desse certo – o centro com certeza merece.



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