• Vitor

As reformas do Vale do Anhangabaú

Atualizado: Mar 28

CEP 01010-001 - esse é o endereço do Vale do Anhangabaú. Não é preciso entender muito da geografia de São Paulo para saber que o local é um marco central da cidade. Mais precisamente, um marco entre duas partes do centro: o centro velho de São Paulo, que se estende rumo a praça da Sé, e o centro novo, em direção a Avenida Paulista.


Recentemente o centro de São Paulo foi eleito pela revista TimeOut como um dos bairros mais legais do mundo! Muita história e cultura em um só lugar! A gente é suspeito, porque amamos demais a região, inclusive contamos um pouco mais sobre as vantagens de morar no Centro de São Paulo

E como tudo em SP, ele já mudou bastante – e vai mudar mais uma vez. Mas antes de entrar no assunto (ou polêmica) da nova reforma do Vale, vamos voltar um pouquinho no passado do Anhangabaú, que é um símbolo das transformações de São Paulo e conta a história da cidade melhor do que ninguém.



Vale do Anhangabaú: como era o Viadulto do Chá no passado??


Vale do Anhangabaú: como era o Viadulto do Chá no passado??


Até o início do século XX, corria pelo vale o Rio Anhangabaú, que tem suas nascentes nos bairros da Vila Mariana e Paraíso. A expansão urbana de São Paulo não havia chegado à região (a maioria das casas ainda se concentravam em volta da Sé), que era ocupada principalmente por sítios e chácaras.


Inclusive, havia uma plantação de chá preto na região (propriedade do Arouche Rendon, para quem quiser procurar a referência) que foi a razão do nome do Viaduto do Chá. Conforme a cidade foi crescendo, a urbanização chegou à região em uma época em que São Paulo era conhecida como a “capital do café”. Em 1906 o rio foi canalizado e a partir de então, o Parque do Anhangabaú foi surgindo aos poucos: com diferentes obras do Plano Bouvard, de 1911, junto com o Teatro Municipal e a Rua Líbero Badaró, era uma paisagem quase francesa.



Vale do Anhangabaú: Plano Bouvard, de 1911, junto com o Teatro Municipal e a Rua Líbero Badaró


Fim do Parque Anhangabaú


30 anos depois, São Paulo era outra cidade – cresceu muito. E as coisas no Vale do Anhangabaú também mudaram: em 1940, o parque foi desfeito para construir uma via expressa que ligava as zonas norte e sul, conectando a Avenida Tiradentes com as avenidas 9 de Julho e 23 de Maio. A área verde ao melhor belle époque paulistana se transformou em um deserto de concreto feito somente para os carros.



Vale do Anhangabaú depois do Túnel


Mobilidade sempre foi um problema na cidade, mas com o passar dos anos, a degradação urbana e a qualidade de vida também passaram a serem questões importantes: com o crescimento da cidade, crescia também a necessidade de áreas verdes e opções de lazer - a ideia era de que as pessoas pudessem ocupar os espaços no centro, não apenas usar como um fluxo de passagem. Dessa necessidade surgiu o Vale do Anhangabaú que conhecemos, em 1991.


A Reforma de 1991


Talvez o maior problema desse novo projeto para o Vale do Anhangabaú tenha sido que, na tentativa de unir o melhor dos dois mundos, o resultado não foi positivo para nenhum dos problemas: as pessoas circulavam por ali, mas preferiam os viadutos. Algumas pessoas estacionavam ali, mas não era tão agradável assim.


Projeto anterior do Vale do Anhangabaú: muitas arvores e passagens para pedrestres


Claro que o projeto era bonito e que o lugar foi palco de diversos acontecimentos importantes – de uma forma ou de outra, era utilizado -como devem ser utilizados os espaços públicos. Mas 30 anos depois, o lugar sofria com a degradação urbana, espantando dali o público que o lugar deveria de ter.

Novo Vale do Anhangabú: Feito pra Gente


Agora, estamos em obras novamente. O projeto foi feito pelo escritório dinamarquês Jan Gehl, com o patrocínio do banco Itaú. Logo deve ficar pronto. Sem entrar no mérito do projeto de paisagismo – que ainda não foi concluído, portanto sem conclusões precipitadas – o fato é que a região precisava de uma requalificação: quando um espaço grande como o Vale do Anhangabaú para de atrair as pessoas, é sinal de que alguma coisa está errada.



Novo Vale do Anhangabaú: maior crítica é a falta de árvores


São Paulo é uma cidade que constrói um novo centro a cada trinta anos, mais ou menos: A Sé, a Av. São João, a Paulista, a Faria Lima, a Berrini... Em vez de procurar expandir a malha urbana cada vez mais, criando novos problemas de mobilidade urbana, talvez a cidade devesse olhar para o centro e para o que já está feito: lugares com acesso fácil, bastante oferta de serviços, alguns dos cartões postais da cidade, tudo ali. Mas existe um elemento fundamental em qualquer promessa de revitalização: as pessoas. É preciso atrair as pessoas para o centro – o que é público deve ser ocupado pelo público.


A iniciativa de revitalização faz parte do novo Plano Diretor da cidade, mais especificamente do PIU (Projeto de Intervenção Urbana), que busca atrair mais pessoas para a região. O centro de São Paulo possui um fluxo diário de dois milhões de pessoas, então a ideia é transformação o Vale do Anhangabaú de um lugar de passagem em um lugar permanência, especialmente no período da noite. Pensando em garantir a agenda de eventos (e também a manutenção do espaço), a prefeitura já abriu edital de concessão, colocando a administração nas mãos da inciativa privada. Um dos pontos mais delicados do projeto é a manutenção do parque e a prefeitura está apostando em parcerias com outros setores para garantir que o espaço funcione de acordo com a proposta.



Perspectiva do novo Vale do Anhanabaú a noite: fontes são controversas


Atualmente, existem diversos parques e áreas de lazer em andamento na cidade: a Paulista fechada aos carros no domingo é um sucesso. O Minhocão segue no mesmo caminho e reza a lenda que um dia vai virar um parque elevado. Até as obras do Parque da Augusta devem começar em breve. A questão é que São Paulo precisa de opções de lazer de acordo com o seu tamanho e sua população: em uma cidade conhecida pelo stress, isso deveria ser uma prioridade.


Se o Vale do Anhangabaú serve para contar a história de São Paulo, talvez esse seja o sinal de que as coisas estão mudando. Já tivemos plantações, já escondemos o rio, já andamos num jardim europeu, já vimos à dominância dos automóveis, agora vemos os esforços para trazer as pessoas de volta. Seria muito bom se desse certo – o centro com certeza merece.


Para quem gosta de arquitetua e urbanismo, também colocamos no blog um texto bem bacana sobr os prédios mais bonitos da cidade! Vale dar uma conferida.



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