Você já ouviu falar da Casa do Povo? Esse é um daqueles lugares muito especiais no centro, que vale a pena conferir!

Dias atrás precisei ir ao Dr. Consulta da Luz, que fica há mais ou menos 10 minutos de casa, quando tem trânsito, uns 15 minutinhos. Resolvi ir de uber, por conta da pandemia. Na corrida da volta, peguei um motorista que me recepcionou com a seguinte frase: “você mora aqui? Seu bairro tem muito o que melhorar. Um dia vai ser um lugar bom”. Na mesma hora de me irritei com a visão dele com o centro.

Em outra corrida, um motorista também se surpreendeu com o fato de morar no centro, com a seguinte frase: “nossa, eu sempre vi o centro como lugar comercial, como é morar aqui?”. Nas duas situações, não soube o que responder. Mas, fiquei muito pensativa sobre como a retomada do centro precisa ser com um outro olhar: morar aqui, é humanizar desse lugar, cuidar desse lugar e honrar um território ancestral.

O bairro do Bom Retiro, onde eu moro, é considerado baixo centro. Muitas vezes visto como velho por conta dos prédios históricos, apartamentos dos anos 1960, tem uma confluência de inúmeras culturas. Dando uma pernada você encontra pessoas de origem oriental, asiática, armênica, africana, italiana... E por ai vai.

Você também gosta da idéia de morar no centro? Vem dar uma olhada nas nossas kitnets!

E em uma dessas ruas, na Três Rios 252, fica a Casa do Povo. Pois é, uma casa nossa, do povo do centro de São Paulo, que junto se mobiliza para mandar um lugar de cultura, arte e estética urbana, além de ações políticas.

Casa do Povo: Três Rios, 252 - Bom Retiro - SP (Imagem: google maps)

A Casa do Povo – Como funciona?

Fundada em 1946, como uma associação sem fins lucrativos, a Casa do Povo teve como seus primeiros donos judeus progressistas vindos da Europa Ocidental, que e moravam majoritariamente no Bom Retiro. O objetivo da Casa do Povo era homenagear os mortos pelo facismos, e honrar as lutas aqui no Brasil pelo fim do nazismo, se tornando um organismo vivo. E esse organismo ganhou um corpo através da construção de um prédio moderno, enorme e muito amplo, com 03 andares e diferentes espaços. Em 1956 a Casa foi inaugurada com um baile e muita comida!

Em 1980 a Casa do Povo enfrentou uma crise institucional e financeira, que acompanhou o declínio do centro de São Paulo. Mas, no final dos anos 2000 passou por uma reconfiguração. Agora, não só as pessoas judias iam ser consideradas e valorizadas dentro da Casa, mas todos e todas que lutam pelo fim do fascismo, racismos, machismo e tantos outros preconceitos existentes no Brasil e no mundo.

A nova Casa do Povo

Hoje, a proposta da Casa do Povo é movimentar a cena de teatro, dança, gastronomia, cinema, arte visual e tantas outras vertentes artísticas e de culturas.

Quero resgatar aqui o espetáculo Quando Quebra Queima, da Coletiva Ocupação, companhia de teatro fundada por alunos e alunas que fizeram a ocupação das escolas públicas entre 2013, 2014 e 2015. A Coletiva trouxe um outro olhar para o teatro, construindo uma peça que retratasse não só o movimento histórico dos estudantes, mas também os sentimentos, descobertas, frustrações de se estar liderando um levante da juventude na América Latina.

A peça Quando Quebra Queima foi apresentada inúmeras vezes na Casa do Povo, justamente por conta dessa abertura política e territorial. Claramente, nem todos os atores e atrizes moravam ali perto, no Bom Retiro, no entanto foi no centro de São Paulo que a luta por uma educação de qualidade de democrática foi firmada.

 

No dia que foi assistir a peça, lembro do primeiro andar lotado. Quase 200 pessoas esperando a primeira chamada do teatro para subir e assistir a peça. As escadarias da Casa do Povo ocupadas de gentes estranhas e conhecidas, companheiros de luta, de movimento e de vida.

A peça se inicia no andar de teatro da Casa. O chão de madeira, as cadeiras espalhadas pelo espaço e sem palco. Todo espaço é palco, pois toda a Casa do Povo é horizontal, sem altos e baixos, ou algum tipo de hierarquia.

 

A Casa do Povo e o jornalismo: por mais diversidade

O meu lugar favorito na Casa do Povo, é a Énois. Sem grandes rodeios, é um dos meus lugares favoritos por propor um jornalismo mais diverso e representativo. Trabalho na Énois como coordenadora de comunidades, e a escolha de estar na Casa do Povo, é além de orçamentária, política.

A Énois se encontra no terceiro andar, no terraço. É um espaço com uma cozinha, e duas salas de trabalho, que durante o período pé pandêmico, ficava preenchido de jovens planejando um novo futuro do jornalismo. O terraço era um bônus, onde iam para tomar um café, fumar um cigarrinho, respirar um ar puro e apreciar a grande São Paulo.

Na sala principal da Énois tem uma janela gigantes, que mostra uma vista preenchida de prédios. Quando fui trabalhar a primeira vez na Énois, o que mais me encantou foi a vista. Só é possível traçar novos planos quando você tem um horizonte, uma visão ampla, o lado de fora da janela.

Bom, mas recapitulando, a Énois é uma organização sem fins lucrativos, que nasceu como Escola de Jornalismo (EJ), e foi a primeira escola de jornalismo voltada para jovens e pessoas de periferia, atingindo cerca de 4.000 pessoas com o projeto, que durou de 2015 a 2019. Antes de 2015, as diretoras Amanda Rahra e Nina Weingrill, davam aula de jornalismo e comunicação em outros espaços alternativos, como a Casa do Zezinho, no Capão Redondo, periferia de São Paulo e Casa Armênia, aqui no centro.

Hoje o time de diretoras é composto também pela Simone Cunha, e somos um Laboratório de Jornalismo, que busca criar estratégia, metodologia e ferramentas para construir e impulsionar um jornalismo mais diverso. Essas ferramentas vêm dos nossos processos formativos, que atingem o Brasil inteiro, de norte a sul, dos programas de trocas de redação e das incidências em grandes mídias, como na Folha de São Paulo.

A existência da Énois na Casa do Povo é recente, porém muito significativa. Como disse, é um espaço democrático, em que todo mundo pode entrar, sair e conhecer. O nosso espaço não tem luxo, mas tem tudo o que precisamos: lousas, cadeiras, internet e livros. A gente recebe e se comunica com as pessoas através do ambiente democrático da Casa do Povo.

 

Ufa, muitas coisas atravessam esse espaço-templo né? Mas, acho que o mais importante desse texto é que, estar no centro, é abraçar cada vez mais que esse território é nosso e merece ser valorizado como um lugar que gera e mantém vida, não só emprego, dinheiro e poder. A Casa do Povo foi fundamental na pandemia, distribuindo máscaras, comidas e proporcionando oficinas para geração de renda. São essas pontes que precisamos para seguir protegendo o centro.

Quer saber mais sobre o centro, cultura e diversidade? Vêm dar uma olhada nos outros textos do nosso blog!