A exposição Enciclopédia Negra ilustra com o centro é um polo de vivência e resistência da cultura negra.

Há mais ou menos três anos fui visitar, na Pinacoteca de São Paulo, a exposição da Rosana Paulino, uma artista plástica brasileira e paulistana, que retrata em suas criações a vivência da pessoa negra, a partir de instalações, telas e colagens. Foram 140 obras curadas, espalhadas no primeiro piso do prédio. Ouso dizer, que foi a primeira exposição individual de uma mulher negra brasileira na Pinacoteca, e ocupar este tanto de espaço é extremamente importante. A partir daí, entendi como museus do centro de São Paulo podem, e devem, valorizar a cultura negra suas narrativas.

Apesar da exposição ter sido incrível, a questão mais marcante desse dia é que, há três anos, para chegar na Pinacoteca, eu precisava me planejar 02 horas antes. Em 2018 ainda morava no Jd. João XXIII, uma região periférica da zona oeste de São Paulo. Como era um final de semana, e certamente domingo, para chegar no centro eu precisava, sim, desse cálculo prévio.

ém de estar indo e voltando do centro todos os dias, eu gostava de separar os finais de semana para ir visitar museus, livrarias, sesc's, teatros, e tantos outros aparelhos que pudessem me dar outras visões sobre cultura e negritude.

Ah, o 7545-10!

ões e um aluguel possível.buscavam um futuro apê, piso de taco, janelões e um aluguel possível.

Bom, na época eu conseguia apenas me planejar para contar com a cerveja do mês – e isso vai ser papo de um outro texto. Mas, hoje, 03 anos depois desse passeio, moro no centro e ouso dizer que a Pinacoteca é meu quintal. Sim. O tamanho dos prédios me assusta menos, eu me acostumei, e as ruas do centro não são mais novidade, mas como as ruas de um bairro, você já sabe quem vai encontrar, aonde é mais seguro, o que será oferecido pra você, o melhor lugar de pedir um carro.

Mas, por que eu tô falando tanto da Pinacoteca e dessa exposição sobre cultura negra?


Calma ... Antes, quero me apresentar melhor. Meu nome é Isabela, eu tenho 22 anos e trabalho com comunicação. Mas também sou artista visual e escritora, tudo isso profissionalmente. Aquele tipo de jovenzinha que não se preocupa muito em especialidades, sabe?

Bem, eu me mudei para o centro este ano, 2021, mas eu convivo nesse território há mais ou menos quatro anos, desde que conquistei independência e passei a desejar mais afetos, pessoas, vivências, descobertas. Faz parte do meu trabalho adentrar como narrativas e oralidades da cultura negra.

O fato é que sempre amei o centro. E minha paixão está muito ligada aos movimentes incessantes de arte, ocupações, política, falas, palestras. Em poucas ruas você tem cartório, bar, museu, uma estátua antiga e uma vendinha de bugigangas orientais. É uma diversidade palpável e admirável.

E o meu ponto de virada foi, justamente, frequentar a Pinacoteca nesses momentos históricos: quando as pessoas negras e indígenas fossem colocadas nas paredes do grande Casarão.

A Pinacoteca, localizada na estação da Luz,  é o primeiro museu de arte visual do Estado de São Paulo, inaugurada em 1905, se tornando museu estadual em 1911. Naquela época, não havia salões públicos para exibição de arte. Hoje, muitas as exposições são gratuitas! Ao lado da Pina tem o Parque da Luz (um dos meus parques preferidos em SP), que é também um polo cultural, como museu de esculturas a céu aberto.

Um novo caminho até o centro

Mês passado eu acordei muito bem em um sábado. Feliz, apesar de todos os pesares que estamos passando. E resolvi me dar de presente um passeio seguro por SP. Sozinha. Apenas eu, eu mesma e eu (como diz nossa rainha Beyoncé). Liguei o celular e fui procurar um ingresso na Pinacoteca. Eram 9h30 e tinha um para 11h45. Pronto. Três anos depois do que eu imaginava intensamente no ônibus, aconteceu. Amanheci bem, sem pressa alguma, tomei um cafezinho e me arrumei, saí de casa faltando 20 minutos para o horário da entrada.

Daqui de casa até a Luz dão mais ou menos 10 minutos. A passagem para essa realidade foi brusca e rápida. Ainda assimilo o que é chegar nos lugares que sempre quis chegar, com apenas 10 minutos de distância.

E dessa vez, a exposição que fui ver não era apenas de uma única mulher negra brasileira, o que já tem sua importância, mas de vários artistas negros e negras, e principalmente, com várias pessoas jovens. Jovens e colegas, amigas de bar, de rua, de trampo. Pessoas que eu trombei muitas vezes no rolê da rua, em outra exposição, ou em algum histórias da internet.

Gente próxima, como eu, nas paredes do museu mais importante de arte visual de São Paulo. Percebi então que a cultura negra pode ser um dos muitos caminhos para a expressão dessa juventude e para manutenção das vidas das pessoas negras no Brasil.

A minha juventude expõe na Pinacoteca

Bom, acho que ficou nítido como me entusiasmei com essa exposição. Enciclopédia Negra é uma exposição sobre figuras do movimento negro, ou apenas pessoas negras, que foram importantes para história. Um emaranhado de narrativas pouco lineares sobre a vivência negra, e como esses artistas negros e negras enxergam o que vivem, o que seus antepassados ​​viveram e o que está por vir.

A exposição tem sua origem no livro Enciclopédia Negra - Biografias afro-brasileiras , de Flávio Gomes, Jaime Lauriano e Lilia M. Schwarcz, que reúne histórias essas esquecidas e apagadas. É um resgate vivo e presente da ancestralidade de nós: pessoas negras.O valor simbólico desse movimento é quase imensurável. No sentido político, múltiplas vozes falam, narram, gritam, sussurram, cantam nas paredes da Pinacoteca, um lugar que foi construído, porém era pouco acessado pela população negra. Depois, ser jovem e poder acompanhar as jovens da minha geração, mulheres negras também, compondo esse acervo de obras, é importante demais.

E tudo isso, essa transformação e essa presença, há 10 minutos de casa.Na exposição pude apreciar as obras de Heloisa Hariadne, Micaela Cyrino, Renata Felinto (minha ex-professora e grande mestra) e Kerolayne dos Kemblin.







Exposição sobre Cultura Negra

Pinacoteca | Enciclopédia NegraDe 01/05 até 08/11Ingresso grátis mediante agendamento aqui. Ah, caso você queira me contar o que achou da exposição, pode escrever para meu e-mail: omiobinrin@gmail.com


Curtiu esse texto? No blog da Citas temos muitos outros posts sobre o centro e as dores e delícias de morar em SP. Ah. temos apês disponíveis para locação a menos de 10 minutos da pinacoteca também :) !